Músculos, seu ingrato, fique em paz *
Tylon Maués
Depois que cresci (nem tanto) passei a não ter muita paciência com animais domésticos. É que nem filho dos outros, legal para brincar um instante, mas quando rola uma tolice ou um cocô quando não devia a gente devolve ao dono. A maior parte da minha vida vem sendo em apartamentos, geralmente apertados, e isso evitou qualquer intenção de uma companhia animal irracional.
Foi então que os filhos vieram e com eles a mudança para um apartamento mais apertado ainda. Lá fiquei um tempo e depois tiver que sair. Sozinho. Coisas da vida. Durante muito tempo os meninos sempre perguntavam quando poderiam ter um cão, um gato ou outro bicho que não presta para nada além de dar trabalho. Realmente não dava para ter um animal nem de porte médio, mas eles arranjaram um passarinho. Um canário. Músculos era o nome dele.
A breve convivência com aquela pequena ave verde e amarela me provou algo: canários não servem para porra nenhuma. Pelo menos aquele. Cantar que é bom, nada. Nem sei se canários cantam. Pular, rolar, fingir de morto ou brincar com um novelo de lã, nem pensar. Mas tudo bem, ele fazia a alegria dos meninos.
Na brincadeira com os amigos o Músculos era sempre o centro das atenções. Devia ter um carisma natural que só não funcionava comigo. Todos o adoravam. Ele chegou a freqüentar o colégio, onde ganhou o coração até das professoras. Lá, com o assédio da meninada (quem já viu ou se lembra de como é uma sala de aula de criança pequena sabe que é uma visão do inferno) um pedaço da gaiola se quebrou. Um remendo aqui, outro ali, tudo jóia. Músculos não precisava de muito mais do que isso.
Quem já teve esses passarinhos sabe que invariavelmente eles têm as asas cortadas para que não voem. Meus filhos passam todos os finais de semana comigo e sempre levavam Músculos a tiracolo. Ele tinha um lugar reservado na sacada do apê, uma tranqüilidade total. E assim foi naquela sexta-feira fatídica.
Eu continuava mantendo a distância de sempre dele, mas já nutria um certo carinho porque ele alegrava Gabriel "Gabbal" (8) e Antônio "Meu Santo" (5). O mesmo sentimento que poderia ter por bonecos de ação, um videogame ou uma bola. O importante era ver os meninos felizes.
Foi então que o Músculos perdeu toda a consideração que tinha por ele e aprontou uma. Aproveitando que estavam todos dormindo ele resolveu fugir. Deve ter arquitetado muito bem seu plano de fuga. Não duvido que tenha sido ele quem quebrou a gaiola. No cair da noite saiu pelo vão de sua cela e... caiu. Caiu porque o estúpido não lembrou que as próprias asas foram cortadas. Mas a queda foi de uma altura pequena, acho que de um metro. Mal deve ter se machucado. Talvez eufórico com o primeiro momento de liberdade plena ele ousou um vôo mais arrojado. "Oras, são apenas seis andares até o chão. Eu me viro", deve ter pensado. Se imaginou isso foi a última coisa que passou pela cabeça do Músculos. Lá foi ele seis andares abaixo.
De manhã cedo os meninos me acordaram com a gaiola vazia em mãos. "O Músculos fugiu".
Puta merda! E agora? Montamos um mutirão em casa para procurar o pássaro, mas quem o encontrou foi o faxineiro do prédio enquanto varria no estacionamento. Isso ficou entre eu e ele (e agora os que lêem o Ressaca). Oficialmente Músculos voou para bem longe, talvez a Bélgica para pegar as similares amarelinhas.
Os meninos ficaram arrasados. Como aquele companheiro de aventuras podia ter sido tão ingrato a ponto de ir embora sem dar adeus ou deixar um bilhete? Isso não se faz. Tentar explicar essas coisas para duas crianças é uma tarefa ingrata. O máximo que consegui foi dizer que ele precisava viver junto à família. Eles entenderam, ou pelo menos fingiram. Passaram o resto do dia calados, prostrados em frente aos canais de desenhos animados.
No final da tarde caí na besteira de comentar o assunto mais uma vez com o Gabbal. Ele desconversava. Garanti a ele que no dia seguinte, um domingo, íamos comprar outro igual. Ele me olhou com quem quisesse dizer "Porra, mas tu não entendes nada mesmo!". Mas o que falou foi "Tylon (eles me chamam pelo nome), a gente gostava do Músculos. Ele era nosso amigo. Ele não tá feliz com a família dele? Então, não quero outro não".
Porra, Músculos, que sacanagem! Isso é coisa que se faça? Tomara que exista um céu para aves e que lá tuas asas cresçam de novo, seu pilantra.
Garotos, garotos.Já notaram que o texto não é meu. O companheiro de Ressaca Moral Tylon Maués o escreveu para os filhos dele. Com o pau que deu no gardenal ele ficou perdido. O jovem ainda fez o favor de esquecer onde guardou o original. Como tinha uma cópia e tô devendo uns favores a ele resolvi fazer essa camaradagem.Abraços.
