Wilson Cremonese - O Rei do Hidrovácuo

Friday, February 17, 2006

Músculos, seu ingrato, fique em paz *

Tylon Maués

Depois que cresci (nem tanto) passei a não ter muita paciência com animais domésticos. É que nem filho dos outros, legal para brincar um instante, mas quando rola uma tolice ou um cocô quando não devia a gente devolve ao dono. A maior parte da minha vida vem sendo em apartamentos, geralmente apertados, e isso evitou qualquer intenção de uma companhia animal irracional.

Foi então que os filhos vieram e com eles a mudança para um apartamento mais apertado ainda. Lá fiquei um tempo e depois tiver que sair. Sozinho. Coisas da vida. Durante muito tempo os meninos sempre perguntavam quando poderiam ter um cão, um gato ou outro bicho que não presta para nada além de dar trabalho. Realmente não dava para ter um animal nem de porte médio, mas eles arranjaram um passarinho. Um canário. Músculos era o nome dele.

A breve convivência com aquela pequena ave verde e amarela me provou algo: canários não servem para porra nenhuma. Pelo menos aquele. Cantar que é bom, nada. Nem sei se canários cantam. Pular, rolar, fingir de morto ou brincar com um novelo de lã, nem pensar. Mas tudo bem, ele fazia a alegria dos meninos.

Na brincadeira com os amigos o Músculos era sempre o centro das atenções. Devia ter um carisma natural que só não funcionava comigo. Todos o adoravam. Ele chegou a freqüentar o colégio, onde ganhou o coração até das professoras. Lá, com o assédio da meninada (quem já viu ou se lembra de como é uma sala de aula de criança pequena sabe que é uma visão do inferno) um pedaço da gaiola se quebrou. Um remendo aqui, outro ali, tudo jóia. Músculos não precisava de muito mais do que isso.

Quem já teve esses passarinhos sabe que invariavelmente eles têm as asas cortadas para que não voem. Meus filhos passam todos os finais de semana comigo e sempre levavam Músculos a tiracolo. Ele tinha um lugar reservado na sacada do apê, uma tranqüilidade total. E assim foi naquela sexta-feira fatídica.

Eu continuava mantendo a distância de sempre dele, mas já nutria um certo carinho porque ele alegrava Gabriel "Gabbal" (8) e Antônio "Meu Santo" (5). O mesmo sentimento que poderia ter por bonecos de ação, um videogame ou uma bola. O importante era ver os meninos felizes.

Foi então que o Músculos perdeu toda a consideração que tinha por ele e aprontou uma. Aproveitando que estavam todos dormindo ele resolveu fugir. Deve ter arquitetado muito bem seu plano de fuga. Não duvido que tenha sido ele quem quebrou a gaiola. No cair da noite saiu pelo vão de sua cela e... caiu. Caiu porque o estúpido não lembrou que as próprias asas foram cortadas. Mas a queda foi de uma altura pequena, acho que de um metro. Mal deve ter se machucado. Talvez eufórico com o primeiro momento de liberdade plena ele ousou um vôo mais arrojado. "Oras, são apenas seis andares até o chão. Eu me viro", deve ter pensado. Se imaginou isso foi a última coisa que passou pela cabeça do Músculos. Lá foi ele seis andares abaixo.

De manhã cedo os meninos me acordaram com a gaiola vazia em mãos. "O Músculos fugiu".

Puta merda! E agora? Montamos um mutirão em casa para procurar o pássaro, mas quem o encontrou foi o faxineiro do prédio enquanto varria no estacionamento. Isso ficou entre eu e ele (e agora os que lêem o Ressaca). Oficialmente Músculos voou para bem longe, talvez a Bélgica para pegar as similares amarelinhas.

Os meninos ficaram arrasados. Como aquele companheiro de aventuras podia ter sido tão ingrato a ponto de ir embora sem dar adeus ou deixar um bilhete? Isso não se faz. Tentar explicar essas coisas para duas crianças é uma tarefa ingrata. O máximo que consegui foi dizer que ele precisava viver junto à família. Eles entenderam, ou pelo menos fingiram. Passaram o resto do dia calados, prostrados em frente aos canais de desenhos animados.

No final da tarde caí na besteira de comentar o assunto mais uma vez com o Gabbal. Ele desconversava. Garanti a ele que no dia seguinte, um domingo, íamos comprar outro igual. Ele me olhou com quem quisesse dizer "Porra, mas tu não entendes nada mesmo!". Mas o que falou foi "Tylon (eles me chamam pelo nome), a gente gostava do Músculos. Ele era nosso amigo. Ele não tá feliz com a família dele? Então, não quero outro não".

Porra, Músculos, que sacanagem! Isso é coisa que se faça? Tomara que exista um céu para aves e que lá tuas asas cresçam de novo, seu pilantra.

Garotos, garotos.Já notaram que o texto não é meu. O companheiro de Ressaca Moral Tylon Maués o escreveu para os filhos dele. Com o pau que deu no gardenal ele ficou perdido. O jovem ainda fez o favor de esquecer onde guardou o original. Como tinha uma cópia e tô devendo uns favores a ele resolvi fazer essa camaradagem.Abraços.

Thursday, July 14, 2005

Em defesa das minorias

Ttexto publicado no RessacaMoral de terça-feira, 28 de junho 28 de 2005

Garotos, garotos.

Não sou nem gosto dessa onda politicamente correta, mas tenho que dar o braço a torcer quando se trata da defesa das minorias. Humilhadas, tolhidas em seus direitos e vítimas de preconceitos, as pessoas que fazem parte de um nicho têm que conviver com uma série de situações inusitadas e com o cerceamento de seu comportamento. Quando tentam proteger seus direitos são taxados de tudo quanto é coisa ruim. Ninguém gosta delas. Particularmente faço parte de um grupo que, há anos, sofre com esse tipo de patrulhamento, o dos homens heterossexuais.

Somos uma minoria. Acho que sempre fomos. Hoje é cafona ser macho. E, quando digo macho não falo daquela figura grotesca de neandhertal pintada pela mídia comprometida. Defendo simplesmente homens que gostam de mulher e não têm vergonha disso. Nos bares, quando se nota isso, os olhares passam a ser enviesados, com ares de reprovação.

Aliás, o fato dos bares serem quase todos para pessoas entendidas nunca incomodou um macho de verdade. Mas, quando aparecemos, deixamos os outros desconfortáveis. Quando duas garotas começam a se esfregar e a se beijar perto da gente nós olhamos. Não que não seja natural, olhamos simplesmente porque é bonito e excitante. "Babaca!", a gente ouve os sussurros. Ora, que mal há ficar olhando as garotas trocando fluidos?

Quando é alvo de olhares ou até cantadas de caras barbados, o bom macho não reage com violência (quem o faz geralmente tem um nervo exposto e tá doido pra sair do armário). Com naturalidade dizemos que não, não é essa a nossa praia. "Babaca!", volta o sussurro. Quando é o outro que bate, o brucutu, a bicharada se revolta, mas fica de pau duro e com a próstata coçando.

Outro problema recorrente foi citado acima. Ficar de pau duro é o fim da picada para algumas garotas. Carambas, se a gente tá lá, naquele amasso (adoro termos antigos) e o trecão* endurece, isso é um elogio. Sinal que a garota excita. E não me venham dizer que homem fica duro por qualquer coisa. Isso só acontece dos 13 aos 16 anos, daí em diante os normais ficam seletivos.

Outro elogio que as garotas não entendem é dizer que ela já foi, ou é, alvo de uma bela punheta. Ficam ofendidas. Acham nojento. Porra, não há reverência maior que um homem possa fazer a uma mulher do que elegê-la como alvo de dez minutos de bronha. Temos um mundo inteiro para escolher como musa imaginária, mas, num dia, ou numa vida inteira, ela foi a escolhida e gozou que foi uma beleza naquele encontro imaginário.

Só aceitei o convite para escrever no RessacaMoral por causa do salário vantajoso e pela oportunidade de, um dia, tentar defender os heterossexuais. Não queremos uma parada, desfiles e personagens recorrentes nas telenovelas. Queremos, apenas, respeito e o direito de uma ereção sem reprovação.

* O termo Trecão é uma cortesia da escritora Gisela Rao.

Tem pai que é cego

RessacaMoral de quarta-feira, seis de julho de 2005

O pai de Hermes desconfiava que o filho era afeminado demais. Dezoito anos e nunca teve uma namorada sequer. Sabedor disso e para não ter problemas com o pai, que o ameaçava deserdá-lo, combinou com Samira uma visita à família. Menina moça e sempre apaixonada por Hermes, ela não pensou duas vezes. Tanto que colocou a roupa de ir à missa aos domingos para fazer bonito.

O paizão era um orgulho só. Já chamava Samira de nora. Deu um charuto pro Hermes e, no cantinho da sala, dizia para o filho: "Olha aí, essa é moça direita. Não é só pra comer, viu!? Não vai abusar dela!". "Qualé, Papi, que é isso? Quáquáquá", ria Hermes.

Estavam todos lá para prestigiar o evento. Primos, tias, agregados, vizinhos e até o chefe do pai. Todos cumprimentavam Hermes. E haja tapinhas nas costas. "Isso aí garoto!", ouvia.A situação só ficou preocupante quando todos se reuniram na sala para assistir ao jogo das eliminatórias. Samira não entendia bulhufas do assunto.

Hermes, adepto do jogo de queimada, sabia menos ainda.Teve que sentar ao lado do pai, tomar cerveja, comer salame com azeitona e complementar os comentários. "Que jogão, hein?". "Ôôôô", respondia Hermes. "Que é que foi que aconteceu, querido? Foi escanteio? O que é escanteio?", perguntava Samira. Complicação dos diabos.

Para ele impedimento e cesta de três pontos era tudo igual.Era um suplício. Ficava reparando nos presentes para não fazer feio. Tinha que saber quando comemorar ou xingar o juiz. Até palavras ofensivas saíram de sua boca. "Juiz bobão. Cara-de-melão", ele gritou e fez cara de mau, já com um palito no canto da boca.

Houve algumas falhas, mas com Samira ao lado o pai relevava a tudo. "Aí coroa, vou pegar uma gelada lá dentro", disse Hermes. Era a glória. Ele estufou o peito saiu da sala. Mentalmente cantarolava Adriana Calcanhoto.

No entanto, aos 45 do segundo tempo, ele se entregou. "Olha as pernas desse Adriano, que escândalo!!", gritou em êxtase Samira. O dublê de namorado e machão veio correndo da cozinha, tropeçou, derramou a cerveja e derrubou o prato de fios. Mesmo assim perdeu a imagem do dito cujo. "Samira, se não tiver replay tá tudo terminado entre a gente!!". Hermes nunca viu a cor da herança.

Tuesday, November 30, 2004

Músicas que assobio o tempo todo.

Psycho Dad

Who's that riding into the sun?
Who's the man with the itchy gun?
Who's the man who kills for fun?!

Psycho Dad! Psycho Dad! Psycho Dad!

He's quick with a gun, but he loves his son.
Killed his wife 'cause she weighed a ton... Psycho Dad!

Thursday, November 25, 2004

Marmotas, guitarras e sugestões em como se sair.

Garotos, garotos.
Todos os dias, nos mesmos horário e local, o meteorologista Phil Connors encontrava Ned Ryerson. O vendedor de seguros insistia que ambos haviam sido colegas de colégio. O primeiro não lembrava do segundo, mas a partir da repetição dos encontros resolveu fingir uma certa intimidade. Admitiu que se lembrava dele. O tiro saiu pela culatra. Ned não parava de importuná-lo todo santo dia. Parecia sempre o mesmo. Um déja-vú. Vendo que a tática anterior não funcionou passou para outra. Quando o corretor se aproximou mais uma vez (a última) Phil abraçou-o e mandou ver uma cantada. Ned saiu de fininho.
Qual a melhor solução para se livrar de um conhecido indesejado? Nicolau da Guia, o guitar hero paraense, costuma dar "Marajó" para essas pessoas. Quem não sabe o significado dessa expressão fica boiando e geralmente se manda. Lindovaldo Bahia simplesmente ignora. Faz parte de seu charme e sua maldição.
Apesar da experiência de vida tenho uma dificuldade crônica quanto a isso. Para minha infelicidade costumo deixar passar e perco muito do meu - não tão precioso assim - tempo com pessoas totalmente desinteressantes. E dá-lhe papo sobre fotografias desfocadas alçadas a peças de arte e bandas que misturam ritmos regionais com o pop (Naza, Nazaré menina...).
Minha mais nova investida foi tentar voltar a fumar. Parei na década de 1990 quando o cigarro ficou careta e meio aboiolado. Procurei nas boas casas do ramo por uma certeira de Continental ou Arizona. Nada. Encontrei quatro variações para Carlton, mas isso não fumo de jeito algum. Para meu azar as tragadas voltaram com carga total à moda, especialmente entre a mocidade.
Nos shows de rock balada de Belém ou Benevides o que mais se vê é a molecada pedindo um cigarro ("Arranja um aí tio!"). Pras menininhas bem parecidas eu dou. O restante mando à merda.
Minha próxima tática de "repelência" aos malas é recuperar velhas camisetas de rock farofa, enterradas na minha penteadeira. Blusas com estampas do Engenheiros do Avaí e da Rita Lee estão lá. Ganhei-as de presente e nunca as usei. Se não der certo parto para a baixaria.
Abraços.

Tuesday, November 23, 2004

Frases que me deixam mal por não ter pensado nelas antes.

"O desemprego não atinge somente aos formados em filosofia, mas também a pessoas úteis", do jornalista Kent Brockman.

Monday, November 22, 2004

Teste, testuda!

Garotos, garotos.
Testes são sempre complicados para mim. Quando eles aparecem na minha frente fico paralisado de medo, meus dedos tremem e fico dando saltos involuntários. Sinto que farei algo errado. Sempre faço. Fiz. Tanto que, para esse primeiro post, havia escrito algo de uma luminosidade sem tamanho. É verdade. É difícil até para mensurar a belezura do estilo que usei. Eu mesmo duvidei que pudesse ter saído de mim algo que prestasse. Geralmente só sai porcaria.
Como tenho para mim que computadores e internet são criações do Coisa Ruim, tento sempre ter o maior cuidado. Não foi suficiente. Apertei numa tecla que fica entre a letra A e o sinal de mais e todo meu trabalho foi para as cucuias.
Desespero e gastura tomaram conta de mim. Eram sete mil toques de um conto envolvendo casos extraconjugais, duas intrigas internacionais, a descrição de um strip-tease sensacional e uma revelação histórica bombástica. O choque da perda foi tamanho que não lembro de nada. Ficou tudo em um dos muitos cantos não utilizados do meu cérebro. A minha perda só não é maior que a da própria comunidade internética. Sinto muito. O que me acalenta é que consegui ter um assunto para escrever uma primeira mensagem.
Termino essas linhas no meu próprio blog com abraços a pessoas que sempre me ajudaram, como Colt Silvers, Tylon Maués, Messias Jardan, Vladimir Cunha (vide Valdecir Versolato) e o Mestre Tarracha, o bamba do carimbó.
Abraços.